Hoje Carol foi despedida.
Começo meu dia pelo fim e a frase com uma sentença. Depois disso nada mais se passou além de choro, medo e solidão. Aconteceu mais uma vez: a despedida chegou e, como entrou, foi-se em boa hora. Eu sei, isso não é sobre mim. Afinal de contas a demissão não foi minha. Fiz questão de me sentir culpado para me livrar da culpa e seguir o-caminho-virtuoso-de-sempre. Agora, neste exato momento, eu não me sinto mal por verbalizar este sentimento: eu estou triste. A única versão a que eu tenho acesso é a minha, mesmo. Por mais bem intencionado e empático, eu ainda não era Carol e não poderia me sentir por ela, só através de mim mesmo, como um local de fala.
Eu queria poder descrever o que eu senti no momento em que Carol foi despedida como uma cena naturalista. Descrição pura e morta. Antes do evento a gente conversava sobre minha ansiedade. Revelei que sofria de antecipação. Tentei acalmá-la, sem sucesso. Ela sabia o que estava me dizendo, embora pecasse do mesmo pecado. Conversávamos sobre essas fragilidades em inglês, por nenhum motivo em especial. Talvez pensá-las em inglês facilitasse, uma vez que não era nossa língua materna e não tínhamos o viés emocional atrelado. No final tendo a pensar que tanto faz porque nosso inglês não é complexo a tal ponto, de modo que se o fosse, perderia toda sua capacidade compreensiva.
Depois disso ela me trouxe café e brevemente falamos de Lauana. Ela tinha levado marmita que sua cunhada lhe tinha feito, assim poderia "salvar" dinheiro para sua viagem a Malmö. Daria tempo até sua perna voltar ao normal. Quanto a mim o de sempre. Sempre como tarde e evito as horas do relógio do computador na empresa, com a ilusão de que aquilo que eu não vejo, existe. Enrolei mais uma vez na cama porque meu irmão não saía do banheiro. Felizmente não me atrasei, cheguei em tempo para ver o desfecho do dia: eu triste, minha mãe feliz e o dia lá fora, apesar de mim.